A agressiva entrada de produtos chineses manufaturados nas Américas deixou de ser uma ameaça às exportações brasileiras e já se apresenta como uma realidade difícil de ser contornada. Estudo inédito realizado pela Unicamp revela que o Brasil vem perdendo espaço na venda de seus produtos para tradicionais parceiros comerciais da região, como o Mercosul e o Nafta (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio). A situação é ainda mais crítica na Associação Latino-Americana de Integração (Aladi), onde a China já ultrapassou o Brasil em participação de mercado.
A agressiva entrada de produtos chineses manufaturados nas Américas deixou de ser uma ameaça às exportações brasileiras e já se apresenta como uma realidade difícil de ser contornada. Estudo inédito realizado pela Unicamp revela que o Brasil vem perdendo espaço na venda de seus produtos para tradicionais parceiros comerciais da região, como o Mercosul e o Nafta (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio). A situação é ainda mais crítica na Associação Latino-Americana de Integração (Aladi), onde a China já ultrapassou o Brasil em participação de mercado.
Para avaliar o grau de ameaça direta e indireta que os produtos manufaturados chineses exercem nas exportações brasileiras, o professor da Unicamp Fernando Sarti, um dos responsáveis pelo levantamento, utilizou dados de market share dos dois países no Mercosul, Aladi e Nafta.
Os resultados apontam crescimento expressivo da ameaça direta chinesa nas três regiões. Considerando o total dos produtos manufaturados, em 2003, apenas 17,1% do total importado por essas regiões do Brasil estavam sob ameaça direta. Em 2006, essa participação subiu para 37,9%, abarcando uma gama de produtos manufaturados que totalizaram US$ 17,6 bilhões. Quando se considera também a ameaça indireta, o total de produtos ameaçados atinge 81% da pauta, em um montante de vendas externas de US$ 37,6 bilhões.
aladi. A análise por cada região permite observar que, no caso da Aladi, a ameaça direta atinge mais de um terço da pauta de importação proveniente do Brasil, em um montante que superou US$ 3,2 bilhões em 2006. Para o Mercosul, o indicador de ameaça direta teve taxa de crescimento ainda mais expressivo, saltando do patamar de 10,3% para 41,1%, abrangendo produtos que totalizaram importações provenientes do Brasil no valor de US$ 5 bilhões em 2006. Para o Nafta, esse montante superou US$ 9,4 bilhões e envolveu 37,4% da pauta em 2006, contra 19% em 2003.
“Estes números são preocupantes porque existe um grau de similaridade muito grande entre os produtos chineses e brasileiros. O preço passa a ser o maior diferencial e, neste quesito, a China leva vantagem. É preciso se abrir uma ampla discussão sobre o assunto, buscando uma política industrial adequada”, defende Fernando Sarti.
Sarti lembra que os vizinhos de região são de extrema importância para as exportações brasileiras de manufaturados. Juntos, Mercosul, Aladi e Nafta representaram, de acordo com os últimos números disponíveis (2006), por cerca de 65% do total das vendas brasileiras ao exterior de manufaturados.
Em 2000, os produtos brasileiros representavam 6,8% do total dos artigos manufaturados compradas pela Aladi, enquanto os chineses, 4,3%. Três anos depois, a situação ainda era favorável para o Brasil, que detinha 8,9% das importações, frente 7,7% de presença do concorrente asiático. Em 2006, no entanto, os números se inverteram: China já abocanhava 11,2% das compras feitas pela Aladi e, o Brasil, 10,4%.
mercosul. No caso do Mercosul, a participação brasileira se elevou entre 2000 e 2003 (de 24,9% para 32,5%), mas permaneceu estável em 2006 (32,5%). Já a China continuou aumentando sua participação, que passou de 5,8% em 2000, para 7,1% em 2003, para 13,2% em 2006. Com relação ao Nafta, apesar do aumento do market share brasileiro, a participação do País ainda é marginal (0,9% em 2000, 1,2% em 2003 e 1,3% em 2006) , enquanto a China mantém uma posição elevada e crescente (8,6%, 13,5% e 18,9%, respectivamente). Ainda assim, o Nafta é o principal mercado de destino das exportações brasileiras de manufaturados, superando a soma do Mercosul e restante da Aladi (US$ 24 bilhões contra US$ 21 bilhões em 2006).
“Os números de 2006 já desenham um cenário bem menos favorável para as exportações brasileiras e que deve ter se agravado em 2007. Isto porque, com a crise do subprime nos EUA e a conseqüente desaceleração da economia daquele país, a China teve de procurar outros mercados e sua política de conquista de clientes é sempre muito agressiva. É provável que o Brasil tenha perdido mais espaço na venda de seus manufaturados, inclusive para o Mercosul, em 2007”, avalia Sarti.
Outro item avaliado por Sarti foi o grau de similaridade dos produtos brasileiros e chineses e a diversificação da pauta exportadora.
“A evolução dos indicadores para as regiões Aladi e Mercosul mostra uma redução acentuada da diversificação da pauta de importação desses mercados com relação ao Brasil. Essa evolução é particularmente preocupante no caso da Aladi, pois o inverso é observado com relação às importações provenientes da China, que se tornaram crescentemente diversificadas. No caso do Mercosul, as importações provenientes da China também se concentraram, ainda que em menor grau que no caso do Brasil. Em relação ao Nafta, principal mercado de exportações de manufaturados do Brasil, as tendências são inversas. A pauta de importação proveniente do Brasil diversificou-se, enquanto a pauta chinesa concentrou-se”, acrescenta o professor da Unicamp.