Folha de São Paulo Editoria: Dinheiro Página: B-1
Grandes vilões da inflação em 2007, os alimentos subiram 10,79% e levaram o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) a fechar o ano com alta de 4,46%. O índice por pouco não estourou o centro da meta do governo -de 4,5%, com intervalo de dois pontos percentuais para cima ou para baixo.
Em 2006, o índice, usado para balizar a política monetária, havia fechado em 3,14%.
Folha de São Paulo Editoria: Dinheiro Página: B-1
Grandes vilões da inflação em 2007, os alimentos subiram 10,79% e levaram o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) a fechar o ano com alta de 4,46%. O índice por pouco não estourou o centro da meta do governo -de 4,5%, com intervalo de dois pontos percentuais para cima ou para baixo.
Em 2006, o índice, usado para balizar a política monetária, havia fechado em 3,14%. A alta em 2007 interrompe trajetória de queda iniciada em 2002.
Pressionados por aumento de preço de commodities e leite, clima desfavorável e expansão da renda e do poder de compra que aumentam a demanda, os alimentos tiveram a maior alta desde 2002 (19,47%). Em 2006, subiram só 1,22% e ajudaram a conter a inflação.
Por causa do choque dos alimentos, especialistas corrigiram suas expectativas de inflação ao longo do ano. No começo de 2007, o consenso apontava para taxa pouco acima de 3%.
Em 2007, o IPCA só não subiu mais graças ao efeito benéfico do câmbio que segurou especialmente preços administrados, como tarifas de energia e telefone, de eletrodomésticos (recuou 1,84%) e TV, som e informática (-9,93%), o que atenuou a pressão dos alimentos. “Os alimentos foram a vedete de 2007. Foi o grupo que mais subiu e o de maior contribuição para o IPCA, correspondendo à praticamente metade da taxa “, disse Eulina Nunes dos Santos, coordenadora de Índices de Preço do IBGE.
Em 2007, o grupo alimentação representou 2,21 pontos percentuais do IPCA. Os itens de maior impacto foram carnes (alta de 22,15%), leite e derivados (19,79%) e feijão (109,2%, em média). Sozinhos, os três contribuíram com 1,06 ponto percentual da inflação do ano.
Em dezembro, mais uma vez, o grupo alimentação turbinou a inflação, que subiu 0,74%, puxada pelo aumento de 2,06% do grupo alimentação -o maior desde janeiro de 2003 (2,15%). Só as carnes registraram avanço de 8,20% em apenas um mês.
E o pior é que não se espera um arrefecimento dos preços no início deste ano. “A inflação deve continuar pressionada. Não há perspectiva de retorno dos preços dos alimentos”, disse Nunes dos Santos.
Por trás da alta dos alimentos, disse ela, está o maior consumo mundial especialmente de países emergentes e o crescente uso das lavouras para a produção de álcool.
Segundo ela, os EUA destinaram mais área para o milho usado na fabricação de álcool. Com isso, afirmou, sobrou menos terra para o cultivo da soja, e os preços dos dois produtos subiram. Como são commodities, a alta afetou todo o mundo.
Os alimentos também aumentaram na esteira do maior consumo e de problemas climáticos enfrentados em diversos países. Um exemplo foi a Austrália, onde houve quebra de safra de leite e trigo principalmente. Com a menor oferta desses itens, os preços também cresceram.
No Brasil, o clima afetou especialmente o feijão, produto cujo preço saltou de cerca de R$ 2 o quilo no início de 2007 para até R$ 8 em algumas regiões.
Âncora cambial
Não fosse o dólar, a inflação teria superado o centro da meta do governo, alerta o economista Luiz Roberto Cunha: “O IPCA teria superado os 5%”.
Âncora da inflação em 2007, quando recuou 16,85% em relação ao real, o dólar segurou preços de importados e de produtos nacionais que passaram a concorrer com similares do exterior. Determinou ainda aumentos menores de preços administrados e tarifas públicas, atreladas aos IGPs de 2006, que subiram menos em razão do dólar baixo.
A principal pressão negativa veio da energia elétrica -queda de 6,16%. O conjunto dos administrados teve impacto de 0,51 ponto no IPCA de 2007, menos do que o 1,38 ponto de 2006.
Pressão sobre a inflação vai persistir, dizem economistas
“Alimento barato é coisa do passado.” A frase, do economista Luiz Roberto Cunha, sintetiza a análise de especialistas sobre o futuro da inflação, que assumiu um novo patamar no ano passado graças ao aumento do consumo em países emergentes e ao desvio de grãos para a produção de biocombustíveis.
Ainda que o grupo alimentação não repita uma alta superior a 10% no ano, economistas projetam um IPCA entre 4% e 4,5% em 2008, com “viés de alta”. A meta oficial é de 4,5%, com tolerância de dois pontos percentuais.
Se os alimentos desacelerarem por um lado, haverá do outro uma nova fonte de pressão: os preços administrados, que serão “realimentados” pela inflação maior do ano passado.
“Há uma mudança do padrão de estrutura de preços internacionais de alimentos, que veio para ficar”, diz Cunha. Estão por trás desse novo cenário a “inclusão” de consumidores nos países emergentes, o avanço do milho destinado ao álcool nos EUA e problemas climáticos, que tendem a ficar mais extremos, segundo Cunha.
Diante disso e de uma perspectiva de altas maiores de tarifas públicas, o economista acredita que o IPCA de 2008 será de 4,5%, “com viés de alta”.
Para Andréa Parreira Lameiras, do Ipea, 2007 foi um ano de “recomposição de preços de alimentos”, que ficaram comprimidos por muito tempo. Além disso, diz, o aumento do consumo de grãos e o uso intensivo do milho para o álcool também impulsionaram as cotações das commodities. Esse cenário, avalia, persiste. Apesar disso, os preços não devem subir com a mesma intensidade em 2008.
“A recomposição já se deu, mas também não podemos esperar uma queda dos preços agrícolas”, diz a economista.
A forte alta dos alimentos especialmente em dezembro “acendeu uma luz amarela”. “Está começando a aparecer uma luz amarela no horizonte da inflação. Os alimentos podem pressionar, ainda que, claro, não na mesma magnitude do ano passado”.
O Ipea não fechou ainda uma previsão para 2008, mas a economista afirma que o IPCA deve permanecer no mesmo nível de 2007 -em torno de 4,5%. “Os alimentos vão pressionar menos, mas os administrados vão ter um impacto maior”, diz.
Mais otimista, Everton Santos, economista da LCA, espera taxa em torno de 4% em 2008 em razão do menor aumento dos alimentos. A LCA prevê uma alta de cerca de 5% para o grupo alimentação. Ou seja, pouco menos da metade da registrada neste ano. “O forte repique dos alimentos em dezembro traz uma perspectiva de incerteza, mas o aumento do ano passado não deve se repetir na mesma intensidade.”
Para ele, esse cenário de “incerteza” deve levar o Banco Central a redobrar a parcimônia na hora de fixar a taxa de juros. “O BC ganhou argumentos para ser mais cauteloso. A taxa Selic deve ficar parada por um tempo maior. Não deve cair até setembro deste ano.”
Para José Ricardo Bernardo, economista da Guedes & Pinheiro, a expectativa é de inflação em alta, o que eleva a chance de aumentar juros. “O trabalho do BC de manter a inflação sob controle será mais difícil do que foi no ano passado.”