O Estado de São Paulo Editoria: Economia Página: B-2
Abram Szajman*
Em 2007 o PIB brasileiro deve aumentar quase 5%, completando dois anos de crescimento significativamente superior à média dos últimos 20 anos.
O Estado de São Paulo Editoria: Economia Página: B-2
Abram Szajman*
Em 2007 o PIB brasileiro deve aumentar quase 5%, completando dois anos de crescimento significativamente superior à média dos últimos 20 anos. Como a economia não experimenta uma seqüência de avanços superiores a 4% ao ano há mais de duas décadas, grande parte das pessoas que integram a força de trabalho na ativa jamais vivenciou uma situação de prosperidade como esta.
Embora ainda distante das necessidades e do potencial do País, esse desempenho, que tem o mérito adicional de ocorrer numa conjuntura de inflação controlada (novamente abaixo dos 4% anuais), pode representar o início do tão sonhado crescimento sustentado, que nos colocaria ao lado de outros países emergentes.
O comércio varejista na região metropolitana de São Paulo acompanha a boa fase, completando um inédito ciclo de 20 meses de contínuas taxas positivas, que devem resultar num crescimento de 4,5% em relação ao ano passado. Porém, ao contrário do que ocorreu em 2006, quando o aumento da renda esteve na base do estímulo ao consumo, neste ano o crédito foi o grande protagonista das vendas. Um dado o demonstra de maneira inequívoca: o crédito deverá ultrapassar R$ 560 bilhões em 2007, valor muito próximo daquele que se estima para o total das vendas varejistas no Brasil este ano e um volume 50% maior do que o concedido em 2004 (acréscimo de mais de R$ 187 bilhões em apenas três anos).
Com financiamento farto, a ênfase dada pelo consumidor foi o investimento na melhoria do patrimônio doméstico. As três atividades de melhor desempenho este ano refletem essa tendência: concessionárias de veículos, lojas de materiais de construção e lojas de móveis e decorações, todas com crescimento acumulado de dois dígitos.
Entretanto, o nível de consumo, que fez o faturamento real do comércio varejista crescer 6% em outubro, na relação com o mesmo mês do ano passado, e 5% mais do que o apurado em maio, superando no acumulado do ano o movimento médio dos três anos anteriores em 8%, não é resultado apenas da oferta de crédito.
O verdadeiro sustentáculo desse ciclo aquecido do varejo é o elevado nível de confiança da população, que sente em seu cotidiano os benefícios de um quadro inédito de estabilidade e aceita assumir compromissos financeiros de longo prazo – como os até 100 meses para pagar veículos novos -, porque está otimista quanto à manutenção de sua renda e de seu emprego.
Que nuvens podem comprometer esse céu de brigadeiro em 2008? Excetuando-se o cenário externo, sobre o qual exercemos escassa influência, a questão mais relevante é saber se o País está preparado para crescer 5% em média, sem que isso tenha como limite gargalos de infra-estrutura, de produção ou de recrudescimento da inflação. Se faltar energia ou produtos nas prateleiras, os preços podem disparar.
Como dificilmente uma empresa, cidade ou país cresce aceleradamente sem problemas de percurso, a infra-estrutura tornou-se fator decisivo. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) mostrou que o governo está atento a essa questão, mas a ausência de sua execução ao longo de 2007 precisa ser rapidamente revertida no próximo ano, de modo a não frustrar expectativas, inviabilizando investimentos do setor privado.
Do ponto de vista do comércio, há obstáculos que dificultam a repetição no ano que vem do bom desempenho verificado em 2006 e 2007. O desemprego que permaneceu elevado em dois dígitos e o rendimento médio real praticamente estagnado apontam para um limite do consumo baseado no crédito: o nível de endividamento das famílias está aumentando e a inadimplência pode explodir. Situação que se agravará se o conservadorismo do Copom mantiver a taxa Selic e, por via de conseqüência, as demais taxas de juros nos patamares estratosféricos em que foram colocadas há uma década.
Em resumo, a fé que o consumidor tem demonstrado precisa ser correspondida por fatos que dependem do governo, como a desoneração tributária e a redução da burocracia e das exigências para a contratação de empregados. Se isso acontecer, o Brasil pode tornar-se em 2008, ao lado dos demais Brics (Rússia, Índia e China), a compensação mundial para o declínio econômico dos EUA, atraindo investimentos diretos em proporção ainda maior do que o verificado este ano.
*Abram Szajman é presidente da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio SP) e dos Conselhos Regionais do Sesc e do Senac