Jornal do Commercio Editoria: Economia Página: A-7
Alheio às oscilações do mercado provocadas pela crise das hipotecas de alto risco nos Estados Unidos, o crédito para pessoa jurídica segue em franca expansão, mesmo para as pequenas e médias empresas, as mais prejudicadas quando o cenário financeiro é pouco amistoso.
Jornal do Commercio Editoria: Economia Página: A-7
Alheio às oscilações do mercado provocadas pela crise das hipotecas de alto risco nos Estados Unidos, o crédito para pessoa jurídica segue em franca expansão, mesmo para as pequenas e médias empresas, as mais prejudicadas quando o cenário financeiro é pouco amistoso. Especialistas mostram que bancos e empresários não esboçam qualquer pretensão de mudança no planejamento das operações de crédito; mais que isso, estão otimistas quanto à expansão da economia neste semestre.
De acordo com dados do BNDES, foram efetuadas 35.975 operações de crédito de pequenas e microempresas no primeiro semestre deste ano, o que representa crescimento de 87% em relação ao igual período em 2006 e um montante de R$ 3,119 bilhões desembolsados. Já as empresas de médio porte desembolsaram valor similar, R$ 3,118 bilhões, ainda que realizando menos operações que as pequenas, cerca de 8.298. Mesmo assim o número de operações do segmento no intervalo é 63% maior que o registrado no ano passado.
No Estado do Rio, o Banco do Brasil registrou em agosto, em comparação a julho, aumento das operações de crédito da ordem de 20% nas linhas de investimentos e de 15% nas linhas para capital de giro e financiamentos para empresas de pequeno porte. O banco não efetuou qualquer alteração na composição de seus produtos de crédito e ainda aguarda para este ano volume de operações 36% superior ao registrado em 2006. Só no segmento de pequenas e microempresas, com faturamento anual até R$ 15 milhões, a expectativa é de que sejam movimentados R$ 200 milhões a mais que o volume negociado no ano passado.
“A crise financeira não afetou a demanda no mercado de crédito, mesmo para as médias, pequenas ou microempresas. Principalmente o setor varejista já começou a realizar operações para o segundo semestre, com foco nas principais datas do comércio, Dia das Crianças e Natal. Esta procura só tende a aumentar, tendo na segunda quinzena de setembro e início de outubro o período mais aquecido”, diz Marcelo Fonseca, gerente de mercado de pessoa jurídica do Banco do Brasil no Rio de Janeiro.
BB Giro Rápido
Dentre os produtos que tiveram maior adesão em agosto, com aumento de 15% em relação a julho, está o BB Giro Rápido, com prazo de 18 meses e que atende à formação de capital de giro para empresas com faturamento até R$ 5 milhões anuais. De acordo com Fonseca, a procura pelos produtos segue normalmente, inclusive nos casos daqueles com períodos mais longos, alguns com até 72 meses de prazo. “Não acredito que haverá mudanças de comportamento nas operações de crédito por parte dos empresários de menor porte; pelo contrário, em vez de evasão, estamos registrando forte crescimento de demanda”, conclui.
Francisco Barone, coordenador do Small Business, o núcleo de empreendedorismo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), acredita que o momento continua favorável tanto para quem contrata o crédito para formação de capital de giro quanto para quem o contrata para alavancagem dos negócios. “As linhas de produtos para capital de giro, que são as que financiam os estoques, são as mais baratas do mercado. Se o empresário precisa de capital para expandir, sugerimos que ele contrate um produto de crédito, é preferível a entrar no cheque especial”, compara.
Imunidade
Barone atribui a imunidade do setor de crédito aos bons resultados dos fundamentos econômicos no País, com a tendência de queda da taxa básica de juros e com o dólar voltando a ser negociado abaixo dos R$ 2. “Os pequenos e médios empresários são sempre os mais sensíveis às oscilações do mercado, seja para o bem, seja para o mal. São eles os primeiros a se beneficiar quando a economia melhora e o clima é de expansão, mas também seriam os mais impactos com a crise se esta representasse alguma ameaça.”
Existe ainda outro motivo para a franca expansão das operações de crédito. Miguel José Ribeiro de Oliveira, vice-presidente da Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), enfatiza que hoje o setor bancário optou por expressiva atuação no setor de crédito, motivado pela demanda reprimida e pela significativa margem que as operações representam. “O volume de operações de crédito ainda é muito baixo, só 32% do PIB nacional.”
Na opinião de Oliveira, só um forte agravamento da crise, e conseqüentemente um grande aumento do risco, justificaria retração na concessão de créditos. “Se houver uma complicação do cenário financeiro, o setor bancário pode se tornar mais exigente e seletivo para a concessão de crédito, com análise mais rigorosa das empresas, o que aí sim prejudicaria os pequenos e médios empresários.”
Se ainda assim o empresário estiver apreensivo para buscar crédito no mercado, a sugestão é contratar produtos com prazos mais curtos, entre dez e 30 dias. Sugestão do consultor financeiro Nelson Campos, da CredShop, que não indica produtos pré-fixados e de prazos mais extensos aos empresários mais cautelosos, caso a crise se agrave. “Quem iria buscar recursos para investimentos e expansão dos negócios ainda pode esperar, mas quem precisa de capitalizar para gerar capital de giro não tem escolha. A melhor opção é contratar produtos de hot money, com prazos de até dez dias”, adverte.