Serviços crescem e dão peso ao desemprego na política do BC

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Valor Econômico  Editoria: Brasil  Página: A-3


O Banco Central está investigando como o crescimento do setor de serviços e a perda de importância da indústria afeta o controle da inflação.

Valor Econômico  Editoria: Brasil  Página: A-3


O Banco Central está investigando como o crescimento do setor de serviços e a perda de importância da indústria afeta o controle da inflação. Uma das conclusões é que, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos, a taxa de desemprego passou a ser uma variável essencial nas decisões de política monetária. 


A participação dos serviços na economia cresceu de 56,3% para 66,7%, de acordo com a nova metodologia de cálculo do Produto Interno Bruto (PIB), divulgada no início do ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No sentido inverso, o peso da indústria no PIB encolheu de 36,1% para 27,7%. 


A primeira constatação da autoridade monetária é que o Brasil já não é mais a economia industrial da década de 1970. Hoje, o país mais industrializado do mundo é a Indonésia, onde o setor responde por 45% do PIB. Estamos mais próximos dos Estados Unidos, onde a indústria representa 23,7% do PIB. 


O BC leva suas conclusões mais adiante: a indústria já não é mais o motor da economia, ou seja, aquele setor dinâmico que, quando entra em declínio, a economia como um todo afunda junto. Na sua visão, não há nada de errado com isso. O setor de serviços caminha com as próprias pernas e, em alguns casos, chega a funcionar como o indutor da atividade industrial. 


Os economistas do BC fizeram recentemente uma pesquisa para checar o que puxa a criação de empregos na economia brasileira – algumas das conclusões estão no texto “Geração de Postos de Trabalho por Atividade Econômica”, disponível no site da instituição. Ficou constatado que, de 1997 a 2004, os setores de serviços e de comércio foram capazes de gerar postos de trabalho em todos os anos, mesmo em 1998 e 2001, quando o emprego no setor industrial encolheu. 


A conclusão, segundo esse estudo, é que os setores de comércio e de serviços tem “certa autonomia” em relação à indústria. E isso faz uma enorme diferença para quem é responsável por controlar a inflação por meio do manejo da política monetária. 


Até agora, o BC dedicava muita atenção ao setor industrial. Acompanhava muito de perto o crescimento da indústria, os aumentos de produtividade nesse setor, a evolução do emprego nas fábricas e, sobretudo, o nível de utilização da capacidade produtiva. Sinais de aquecimento nesse setor acendiam a luz amarela. Como se supunha que a indústria era o motor da economia, inferia-se que todos os setores haviam chegado perto do limite, inclusive os serviços, exigindo mais cuidado da política monetária. 


Com os novos dados do PIB, toda essa preocupação em acompanhar a indústria continua válida. Mas a ordem, agora, é também checar o que acontece nos serviços – seu crescimento, o aumento da oferta e o nível de utilização da capacidade instalada. 


O principal indicador do setor de serviços é justamente a taxa de desemprego. Essa será, daqui por diante, uma variável essencial a ser acompanhada pelo BC, replicando no Brasil o que já ocorre nos Estados Unidos. Lá, o principal indicador para a política monetária é o “non-farm payroll”, ou seja, os empregos de toda a economia, exceto agricultura. Os analistas que acompanham o Federal Reserve (Fed), o BC americano, dedicam um bom tempo investigando as relações entre o desemprego e a inflação. 


No Brasil, os economistas do setor privado dão importância limitada para os dados de desemprego. O foco é a análise dos dados sobre a capacidade ociosa da indústria. O BC quer mudar isso. Além do estudo sobre os setores que geram mais empregos, vai publicar outros trabalhos, para estimular o debate sobre o tema. 


 


 

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