Contas externas têm 1º déficit em 18 meses

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As importações crescentes começam a fazer efeito nas contas externas. Em julho, o saldo de todos os pagamentos e recebimentos do Brasil com o exterior ficou negativo em US$ 717 milhões. Essa foi a primeira vez desde janeiro de 2006 que o volume de dólares que saiu do país é maior que o registrado na entrada. Maiores gastos em dólares de empresas e pessoas físicas explicam o resultado.


O principal vilão das contas externas foi a balança comercial. Em julho, as importações aumentaram 35% na comparação com igual período de 2006.

As importações crescentes começam a fazer efeito nas contas externas. Em julho, o saldo de todos os pagamentos e recebimentos do Brasil com o exterior ficou negativo em US$ 717 milhões. Essa foi a primeira vez desde janeiro de 2006 que o volume de dólares que saiu do país é maior que o registrado na entrada. Maiores gastos em dólares de empresas e pessoas físicas explicam o resultado.


O principal vilão das contas externas foi a balança comercial. Em julho, as importações aumentaram 35% na comparação com igual período de 2006. Isso aumentou a despesa das empresas, que tiveram de mandar mais dólares ao exterior. “O saldo da balança comercial caiu bastante, e a tendência é que as importações sigam em alta porque a demanda interna está aquecida”, afirma o economista-chefe do Deutsche Bank, José Carlos de Faria.


Além do impacto dos importados, também pesou o aumento da remessa de lucros e dividendos ao exterior. Em julho, multinacionais instaladas no Brasil remeteram US$ 2,1 bilhões às sedes. O valor é 20% maior que o registrado em junho e 143% superior a julho do ano passado.


O professor da Faculdade de Economia e Administração da USP, Fábio Kanczuk, explica esse movimento por três fatores: 1) aumento do total de investimentos estrangeiros no Brasil; 2) maior lucro desses empreendimentos; 3) o dólar baixo em julho favoreceu o envio de ganhos às sedes. “Tudo isso ajuda as empresas. Já que, com o dólar baixo, o lucro em reais representa maior valor em dólares. As empresas aproveitaram mais esse ambiente em julho”, diz Kanczuk.


Com os dois fatores, o saldo das chamadas transações correntes ficou negativo em US$ 717 milhões, o primeiro déficit desde janeiro do ano passado e o pior resultado desde abril de 2004. O resultado surpreendeu o BC, que esperava superávit de até US$ 100 milhões. Mesmo assim, as contas continuam com superávit no ano. Em sete meses, as contas registram saldo de US$ 3,6 bilhões.


No mês passado, o resultado do balanço de pagamento teve um superávit de US$ 7,652 bilhões. O saldo foi gerado pela contribuição positiva de US$ 7,024 bilhões na conta financeira. Nos serviços, houve um saldo negativo de US$ 4,456 bilhões, e as transferências unilaterais para o Brasil somaram US$ 392 milhões.


Saldos menores


Com a expectativa de que as importações sigam em alta, analistas apostam em queda do saldo em conta corrente nos próximos meses. O próprio BC acredita no cenário. O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, diz que o resultado de agosto deve vir próximo da estabilidade. “Devemos ter superávits menores, mas o resultado tende, ainda, a ser positivo”, afirma.


A projeção do BC é compartilhada pelo mercado financeiro. O diretor da Modal Asset Management, Alexandre Póvoa, diz que a balança comercial de agosto tem apresentado números aquém do esperado, o que deve pressionar o resultado das contas externas para baixo. “Olhando para a frente, esse cenário se repete. O saldo comercial deve reduzir o resultado das transações correntes. Mas, mesmo assim, o quadro ainda não nos preocupa”, avalia.


Fábio Kanczuk, professor da USP, observa ainda que países em desenvolvimento costumam ter déficit em conta corrente. “Mercados como o Brasil são importadores de capital [dinheiro estrangeiro]. Por isso, costumam ter transação corrente negativa. Isso deve acontecer no médio prazo”, diz.


Após turbulência nos mercados, bancos passam a apostar na valorização do dólar


A crise internacional mudou a estratégia dos bancos no câmbio. Em agosto, as instituições financeiras passaram a acreditar na alta do dólar pela primeira vez desde novembro de 2006. O movimento foi registrado pelo Banco Central. Para analistas, o fenômeno reflete a desconfiança com os rumos do mercado financeiro.


Nos 21 primeiros dias de agosto, bancos mantiveram posição comprada de US$ 1,328 bilhão. Estar comprado, no jargão financeiro, significa apostar na alta das cotações da moeda norte-americana. Nessa transação, bancos assumem compromisso de compra do dólar no futuro com cotação preestabelecida, garantindo preço combinado em cenário de cotação em alta.


Esse quadro é diferente do visto nos meses anteriores. De novembro de 2006 a junho de 2007, instituições mantiveram forte posição vendida -aposta de queda das cotações.


“Isso mostra o susto que o mercado financeiro levou com a crise imobiliária nos Estados Unidos”, afirma o diretor da Modal Asset Management, Alexandre Póvoa.


Movimento de manada


A opinião é compartilhada pelo professor da Faculdade de Economia e Administração da USP Fábio Kanczuk. “Tivemos um movimento de manada em meio ao pavor dos investidores. Em momentos de nervosismo e turbulência, o que mais acontece é ficar em posições defensivas como essa”, diz Kanczuk. Os dois observam, contudo, que a tendência do dólar não é a de alta. “Isso é muito mais uma reação de susto. Tanto que a moeda está voltando ao patamar anterior”, completa.


A explicação dos especialistas é diferente da dada pelo Banco Central. Na avaliação do chefe do Departamento Econômico da instituição, Altamir Lopes, o que mais pesou foi a mudança na regulamentação do mercado cambial realizada em junho que dificultava a manutenção de grandes posições vendidas. “Isso pode ter influenciado, mas não seria suficiente para transformar a aposta, de queda para alta do dólar. Essa reversão foi gerada pela crise”, diz Kanczuk.


Apesar desse cenário, analistas não acreditam no reforço da posição comprada. “O pessoal está em período de análise da situação. A mudança principal já foi feita ao aumentar a defesa, e agora o investidor analisa o mercado para ver o que fará”, afirma Póvoa.


Investimento direto mostra desaceleração


O investimento estrangeiro direto somou US$ 3,584 bilhões em julho. O resultado, que representa desaceleração ante o recorde histórico de junho, veio dentro das expectativas do Banco Central. O valor é 126% maior que o registrado em julho de 2006. Analistas dizem que o cenário turbulento internacional não ameaça a entrada desses dólares.


Dados do BC mostram que a entrada de recursos continua em ritmo forte. O chefe do Departamento Econômico da instituição, Altamir Lopes, diz que o valor registrado está dentro da expectativa oficial, mas que o registrado nos sete primeiros meses do ano ainda surpreende.

No período, o Brasil recebeu US$ 28 bilhões em investimentos. “Surpreende pelo resultado do meio do ano, que costuma ser mais baixo pelas férias no hemisfério Norte.” O número foi inflado pela entrada de US$ 10,3 bilhões em junho, mês que teve o impacto da aquisição de ações da siderúrgica Arcelor Brasil pela multinacional Mittal.


Outro dado que chama a atenção é a entrada de US$ 6,289 bilhões que foram aplicados em ações. Segundo Lopes, a maioria desses recursos foi investida nas empresas que lançaram ações em julho na Bolsa de Valores de São Paulo.


O economista-chefe do Deutsche Bank, José Carlos de Faria, diz que a entrada de recursos para a compra de ações deve se desacelerar no resultado de agosto. Esse freio do investidor foi gerado, segundo ele, pela turbulência internacional.


Apesar desse cenário mais conservador, ele não acredita em queda do volume de dólares para investimentos produtivos. “Não devemos sentir efeito desse nervosismo. A crise não chegou à economia real”, afirma.


 

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