O Tesouro Nacional está sendo obrigado a pagar juros mais altos nos títulos que vende ao mercado financeiro em razão da crise que atinge os mercados financeiros mundiais.
Nas últimas duas semanas, as taxas cobradas pelos investidores na compra dos papéis que têm os juros definidos no momento do leilão, os chamados prefixados, voltaram para percentuais próximos ao que o governo vinha pagando em maio.
No início de julho, o governo conseguia ofertar títulos prefixados com vencimento em 2009 pagando juros de 10,76% ao ano.
O Tesouro Nacional está sendo obrigado a pagar juros mais altos nos títulos que vende ao mercado financeiro em razão da crise que atinge os mercados financeiros mundiais.
Nas últimas duas semanas, as taxas cobradas pelos investidores na compra dos papéis que têm os juros definidos no momento do leilão, os chamados prefixados, voltaram para percentuais próximos ao que o governo vinha pagando em maio.
No início de julho, o governo conseguia ofertar títulos prefixados com vencimento em 2009 pagando juros de 10,76% ao ano. Na semana passada, a taxa havia subido para 11,31% ao ano. O mesmo aconteceu nos títulos de dez anos: os juros pré-crise eram de 10,75% ao ano e subiram para 11,45% ao ano. Já nos títulos de três anos, o aumento foi de 10,8% ao ano para 11,42% ao ano.
Na prática, isso significa que o governo terá uma despesa maior com juros no futuro. Segundo os cálculos feitos pela Mauá Invest, o custo adicional nos dois últimos leilões é de R$ 24,7 milhões, considerando o prazo final do vencimento dos títulos. É um valor baixo, considerando que a dívida total do governo alcançava em junho R$ 1,198 trilhão. Mas a mudança interrompe a trajetória de queda dos juros que o país paga para financiar sua dívida.
Para evitar um prejuízo ainda maior, o Tesouro Nacional mudou a sua estratégia desde o dia 25 de julho, quando a crise nos mercados mundiais se agudizou. Em 26 de julho, por exemplo, não houve leilões.
Nas duas últimas semanas, com a turbulência, o governo decidiu reduzir os valor de títulos ofertados. Na semana pré-crise, por exemplo, foram colocados à venda R$ 4 bilhões em papéis com vencimento em outubro de 2009. Nos dois últimos leilões, a oferta caiu para R$ 1 bilhão e, num deles, o Tesouro aceitou vender apenas R$ 210 milhões.
Permanecer no mercado
“Consideramos importante que o Tesouro permaneça no mercado. É uma forma de dar tranqüilidade aos investidores e de mostrar que temos demanda. O que fazemos é adotar uma posição mais conservadora no volume vendido”, disse o secretário-adjunto do Tesouro Nacional, Paulo Valle.
Mas, enquanto agosto foi um mês com vencimentos muito baixos na dívida pública -só R$ 3,7 bilhões-, permitindo ao Tesouro reduzir a oferta de títulos, eles crescerão significativamente nos próximos meses: cerca de R$ 50 bilhões em setembro e R$ 30 bilhões em outubro.
As vendas semanais do Tesouro, mesmo com juros mais elevados, são consideradas importantes pelo economista Caio Megale, da Mauá Invest. Segundo ele, o custo ainda é muito baixo diante da sinalização de que o governo continuará seguindo a estratégia de longo prazo, que é aumentar a participação dos prefixados na dívida pública, mesmo em momentos de volatilidade.
A alternativa aos juros mais altos pedidos pelo mercado é o governo usar as reservas internacionais que tem em caixa -superiores a US$ 150 bilhões- para quitar a dívida que vence enquanto durar a turbulência ou dar preferência aos títulos pós-fixados, cuja taxa de juros varia diariamente.
“Não há a menor necessidade de reduzir as emissões de prefixados. Se olharmos a taxa atual, mesmo com a crise, ela é menor do que o governo pagava no começo do ano. Esse é ainda um estresse moderado para padrões brasileiros”, disse o economista Joel Bogdanski, do Banco Itaú.
Instabilidade ameaça afetar comércio mundial, diz OMC
As turbulências nos mercados mundiais podem afetar o crescimento da economia e do comércio global neste ano, segundo relatório da OMC (Organização Mundial do Comércio). Além disso, o estudo aponta os desequilíbrios nas balanças comerciais como fator para a possível desaceleração.
Para o organismo, as estimativas que apontam que a economia mundial crescerá cerca de 3% neste ano podem fazer com que o comércio global avance 6% em 2007, ante expansão de 8% no ano passado. E, caso o mercado de crédito imobiliário americano -causa original da atual instabilidade nas Bolsas- continue com problemas, ele prevê uma cenário ainda pior.
“Caso os problemas no “subprime” [mercado de crédito de alto risco] continuem ou se agravem, nós teremos provavelmente um impacto maior no crescimento econômico e na expansão do comércio no próximo ano”, afirmou Robert Teh, diretor do organismo que é palco das negociações da estagnada Rodada Doha de liberalização do comércio mundial.
As Bolsas mundiais, alvo da preocupação da OMC, tiveram um dia de queda ontem, afetadas pelos resultados de empresas como o Wal-Mart e os temores em relação aos mercados globais de crédito.
A rede varejista Wal-Mart, maior empresa do mundo segundo a “Fortune”, teve um lucro de US$ 3,1 bilhões no segundo trimestre deste ano, um aumento de 49% em relação ao mesmo período de 2006. Mas a empresa disse que o resultado anual poderá ser menor que o previsto por analistas. Já o lucro da Home Depot, de materiais de construção, caiu 15% no segundo trimestre, para US$ 1,59 bilhão. Os dois resultados geraram temores de que o consumo americano, maior motor da economia dos EUA, também possa estar em queda.
O balanço do banco suíço UBS, o maior da Europa, também ajudou a derrubar os mercados. O seu lucro avançou 79% no segundo trimestre com venda de ativos, mas ele disse que a turbulência deve piorar seu resultado neste semestre.
Outra má notícia veio do fundo americano Sentinel Management Group -que administra US$ 1,6 bilhão. Ele informou a clientes que queria bloquear resgates para evitar liquidação forçada de papéis, medida negada pelas autoridades.
Mas o dia também teve bons índices dos EUA, que não derem respiro aos mercados. O núcleo da inflação ao produtor ficou em 0,1% em julho. E o déficit comercial ficou em US$ 58,1 bilhões em junho, o menor em quatro meses.